Eu os observei virarem a esquina e virem na minha direção.
Do ponto de ônibus, contei cada passo dado
dela, sempre sob o olhar cuidadoso dele.
Caminhavam tão lentamente. Como se a vida
não tivesse mais pressa. Como se o tempo os aguardasse em algum lugar.
As mão dele, marcadas pela velhice,
pousavam sobre as costas curvadas e a cintura dela.
Ela me olhou nos olhos. Tentei sorrir mas
admiração me consumia.
Tentava decifrar os anos de casados deles.
O que eles passaram juntos. O quanto ele fez diferença na vida dela e o quanto
ela o amparou nesse caminho.
Quantos abraços trocados, quantas
brigas.
Quantas situações embaraçosas eles já dividiram.
Quantos passos eles já deram um ao lado do
outro.
Ainda não estão nem na metade do caminho.
Passem logo que meu ônibus vai chegar.
Ele tropeçou e ela sorriu tentando
apoiá-lo. Fiquei atento.
Eles continuaram caminhando até começarem
a me olhar.
Mexi no celular.
Vi o quanto a vida corria
ali na tela enquanto eles caminhavam naqueles passos tão lentos e
descompassados.
Chegaram ao meu lado. Ela sorriu me olhando. Sorri de volta.
Continuaram caminhando tão devagar que era possível ouvir o
barulho do calçado sobre as pedras.
Ainda abraçados e totalmente alheios a correria que os cercavam,
viraram a outra esquina.
Entendi ali que o amor é se dividir para se multiplicar no outro.
Meu ônibus chegou.
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